Pós-humano

            Eu o ficava observando quando o encontrava ocasionalmente pelas ruas da cidade. Ele parecia nunca perceber. Nunca olhava para trás. Nem para os lados. Até mesmo quando atravessava uma rua qualquer. Se por ventura algum carro cruzasse seu caminho, ele parava o tempo necessário para poder seguir adiante e somente isso. Mas os caminhos estavam sempre livres para ele. Ele seguia sempre em frente, olhando apenas o que atravessava sua rota. Nada parecia poder detê-lo.
            A primeira vez que o avistei, ele vinha caminhando tranquilamente por uma trilha que margeava a estrada de ferro que corta a cidade. Era noite e eu vinha da igreja que eu frequentava aos domingos. Elegantemente vestido de preto e com seu sobretudo de corte impecável, suas roupas caíam com perfeição sobre seu corpo esguio. Alto e magro, sua imagem por si mesma já era algo que chamava a atenção de qualquer pessoa que o visse. Sua silhueta era como a daqueles manequins que se vê nas vitrines das lojas. Ele seguia para o norte, na direção do centro da cidade, que estava a pouco mais de quinhentos metros do local onde estávamos. Seguíamos na mesma direção.
            Andando rápido pela calçada de pedras brancas e pretas do hotel, que lembram o desenho do calçadão de Copacabana, do lado esquerdo da rua, eu acompanhava-o discretamente com o olhar. Pensei em atravessar a rua e seguir pela outra calçada, para poder observá-lo melhor. Apesar do gramado arborizado que ficava entre a calçada e a trilha por onde ele andava e a distância de aproximadamente quinze metros que separava-nos, eu temi que ele percebesse que eu o observava e permaneci onde estava. Seus passos firmes e calculados e sua postura muito ereta imprimiam-lhe um ar confiante. Fazia frio, mas isso parecia não incomodá-lo.
            Um pouco à frente havia um rio. Se ele continuasse seu sossegado e solitário caminho, teria que atravessar a ponte anteriormente destinada aos trens, que o levaria para detrás do bloco de casas que separava a rua da estrada de ferro. Do contrário, ele seria obrigado a vir para a calçada e usar a ponte para carros e pedestres. Ele continuou.  
            Corri como um louco até a esquina afim de não perdê-lo de vista. Dobrei à direita, caminhei rápido por uns cinco metros, atravessei a rua e entrei correndo pela praça. Das quatro ruas que a cercavam, duas cruzavam com a linha férrea e uma seguia paralelamente a ela. A distância que ele percorreria até ali era menor. Eu estava ofegante. Andei devagar tentando controlar a respiração. Olhei para a rua que seguia junto da estrada de ferro. Estava deserta. Fui até o extremo da praça e olhei para o lugar de onde ele deveria sair. A terra vermelha sulcada formava um caminho que parecia brilhar em meio à grama do terreno por onde passava a linha do trem. Era possível acompanhá-la com o olhar até o pontilhão de ferro que ligava as duas margens do rio. Não havia ninguém.
            Eu não conseguia entender como ele havia desaparecido. Mesmo que ele tivesse andado mais depressa, dificilmente eu não o encontraria por ali. Decidi então seguir pela rua que ele tomaria se continuasse em linha reta. A trilha por onde ele andava, separada da sombria rua por uma estreita faixa de terra com árvores baixas e pequenas roseiras, continuava por mais cem metros até a estação e, dali,  cruzava toda a cidade até a zona rural.
            De onde eu estava podia ver a área de embarque de passageiros, hoje usada apenas pelos turistas que vem para um passeio de trem puxado por uma antiga locomotiva inglesa movida a vapor, e todo o pátio da estação. Não avistei um vulto humano sequer em todo o meu campo de visão.
            Resolvi seguir pela rua. Dali para frente não seria nada agradável para alguém trajado tão impecavelmente como ele seguir a trilha que ia junto da cerca viva que fechava o pátio de manobras. Passei pela frente da estação, de onde era possível ver o relógio da igreja matriz que marcava nove horas e trinta minutos. Havia também outra praça ali, à minha esquerda, do outro lado da rua. Estava completamente vazia, apesar do tempo seco. Depois do prédio da estação de trens, a calçada por onde eu andava tornava-se mais ampla. Era também de pedras brancas e pretas que formavam desenhos que representavam um antigo jogo infantil de pular num pé só em casas numeradas riscadas no chão. O lugar estaria deserto, não fosse por mim e um homem que vinha em sentido contrário na calçada do outro lado da rua. Continuei meu rumo sem entender como ele tinha desaparecido tão misteriosamente e procurava compreender a razão pela qual aquele estranho homem despertara-me tanto interesse, sem, no entanto, conseguir encontrá-la.
            Durante todo o percurso até minha casa, eu tive a nítida impressão de que alguém me observava. Mas quando olhava para trás ou à minha volta eu nunca avistava ninguém. Não dei muita importância ao fato.
            Naquela semana eu tinha começado a trabalhar em uma empresa de seguros que ficava próxima ao maior hotel da cidade, do outro lado da ferrovia, de frente para um bonito bosque de árvores altas. O bosque que é cortado pela trilha onde eu avistara o elegante homem vestido de preto.
            Na manhã seguinte, ao chegar à agência, lembrei-me do intrigante homem. Procurei afastar aquilo da mente. Logo que entrei, a secretária perguntou-me se eu conhecia uma moça chamada Lia. Eu respondi que não e ela relatou-me quase o dia de domingo inteiro dela e da tal moça, até finalmente dizer que ela desaparecera naquela noite. Eu comentei que talvez ela estivesse com algum rapaz aqui mesmo na cidade e que certamente não seria nada grave e, em seguida, dirigi-me para a minha sala.
            Durante toda a semana não tornei a encontrar o homem de preto e não pensei mais no assunto. Até aquela sexta-feira.
            Eu tinha ficado trabalhando até mais tarde naquele dia. Não trabalhávamos aos sábados e eu precisava rever uns papéis para enviar a um cliente. Era por volta das dez da noite quando saí do escritório. Fechei a agência e coloquei as chaves no bolso de dentro do casaco. A noite já estava bem fria. Olhei para ambos os lados da rua e atravessei. Um ciclista passou rápido pela trilha do bosque. A lembrança do homem veio-me instantaneamente. Caminhei por entre as árvores até os trilhos e parei por um momento antes de atravessar. Tive aquela sensação de estar sendo observado. Instintivamente, olhei para trás e para os lados. Não havia ninguém por perto. Quando preparava-me para passar sobre os trilhos, meus olhos subitamente são atraídos para os portões do hotel. Não sei explicar como, mas eu sabia que meu observador estava lá em algum lugar. Era um sentimento estranho. Eu sentia que alguém me observava continuamente daquele ponto, ao mesmo tempo que parecia estar ali, bem próximo de mim, à minha volta. Senti um estremecimento percorrer minha espinha e os pelos do meu corpo arrepiaram-se. Eu queria sair dali, mas minhas pernas não se moviam. Meus olhos estavam fixos nos grandes portões do hotel e eu não podia desviar a minha atenção. Algo muito forte parecia atrair-me para lá.
            Da mesma forma como veio, de repente aquilo tinha passado. Não sei quanto tempo eu ficara parado naquele lugar, mas parecia que havia se passado um longo tempo. Puxei a manga do casaco o olhei o relógio. Eram dez e dez. Não poderia ter passado mais que dois minutos desde o momento em que eu saíra da agência e me preparava para atravessar os trilhos de trem. Intrigado, olhei outra vez naquela direção e o vi subir à calçada como se tivesse vindo da minha direção e adentrar o hotel. No segundo em que o vi, senti-me imensamente atraído por aquele obscuro ser do qual eu não conhecia sequer o rosto. Dessa noite em diante ele se tornaria uma obsessão para mim.
            Passei o sábado inteiro pensando naquela sinistra figura vestida de preto. Imaginei inúmeras personalidades para aquele estranho. Talvez ele fosse um turista estrangeiro. Ou quem sabe um milionário excêntrico que gostasse de caminhar sozinho pela cidade à noite. O fato dele ser rico é certo, pois está hospedado no hotel mais caro da cidade. Ele poderia ser um empresário rico que estivesse de férias aqui. E até mesmo poderia ser tudo isso junto: um empresário estrangeiro, milionário e excêntrico, de férias, aproveitando a noite calma do interior como turista. Achei engraçado esse pensamento e ri, divertido.
            Voltando da igreja no dia seguinte eu resolvi andar pela calçada ao lado do bosque, na esperança de encontrá-lo novamente. Eu caminhava devagar, olhando para ambos os lados da rua e para a trilha que seguia junto dos trilhos de ferro. Percebi que desejava muito encontrá-lo. Mas eu não sabia o porquê. Eu me sentia ansioso. Não compreendia o que estava acontecendo comigo. Aquela sensação de ser observado voltou ainda mais intensamente. Olhei para trás e para os lados como sempre fazia. Mais uma vez eu não percebi ninguém que pudesse estar olhando para mim.  Comecei a sentir que algo estava próximo. Eu jamais conseguiria explicar. Isso parecia ser uma presença, mas não era nada que eu tivesse sentido antes. Era como se estivesse em minha mente, mas estava também ao meu redor, junto de mim, ao mesmo tempo que me observava a uma certa distância. Percebi que estava andando rápido. Senti o ar mover-se do meu lado direito. Olhei e nada vi. Tampouco havia vento. As folhas das árvores não moviam-se nem um milímetro. A sensação desapareceu no mesmo instante em que o avistei caminhando calmamente pela trilha, poucos metros à minha frente. Eu o segui com o olhar e pude ver quando ele chegou perto da ponte do trem, virou à direita e começou a descer por uma pequena escada de paralelepípedos que há ali. Apertei os passos e cheguei até o topo da escada, mas ele novamente tinha desaparecido.
            Olho para a velha ponte feita de ferro que sustentava os trilhos sobre o rio. Senti-me vulnerável ao pensar em atravessá-la. Estava escuro e ainda tinha um trecho deserto até chegar à rua. Virei-me, confuso, e voltei para a calçada, cruzando a outra ponte. Sentia-me estranhamente tolo e aliviado. Como um animalzinho que tivesse sido espreitado por um possível predador que agora se afastara, desprezando-o.
            Segui até a praça, tentando entender o que acontecera. Não conseguia chegar a uma explicação racional para aquilo. Atravessei a rua e senti um ímpeto de cortar caminho pela praça e seguir pela rua que levava para a estação. E foi o que eu fiz, sem entender o motivo pelo qual eu queria tanto fazer isso. Andei pela rua, um pouco escura naquele trecho, até chegar na outra praça em frente a estação. A cidade era cheia de praças e todas elas possuíam uma bica de água mineral. Com sede, parei para tomar um pouco de água. Ao erguer-me novamente deparei-me com o homem do outro lado da rua. Não havia como eu estar enganado. Era o próprio. Ele caminhou calmamente até onde começava o calçadão de pedras pretas e brancas que desenhavam aquele jogo infantil e virou à direita.
            Eu corri alucinado na sua direção, quase sendo atropelado por um carro que passava, pulei para a calçada ampla e subi em dois passos os quatro degraus que levavam para a plataforma da estação ferroviária. Olhei para a plataforma completamente vazia e semiescura e em seguida para o caminho de terra que cruzava o largo pátio cortado pelos trilhos de ferro até o prédio retangular quase em ruínas, onde eram guardados os vagões de passageiros e a antiga locomotiva a vapor. Havia dormentes de madeira empilhados próximos a grande caixa d´água de metal, erguida um pouco à minha esquerda, sobre uma estrutura robusta feita de tijolos maciços e concreto. Não tinha ninguém em parte alguma. Voltei para o calçadão sentindo-me novamente tolo e confuso. Andava pelo meio da ampla calçada. Eu não queria admitir, mas sentia-me inseguro e frágil como uma criança. Outra vez aquela sensação de estar sendo observado por um ser invisível e incrivelmente poderoso. Esse sentimento acompanhou-me por todo o trajeto e desapareceu somente quando eu entrei em minha casa e fechei a porta.
            Naquele fim de semana, mais uma pessoa havia desaparecido sem deixar vestígios. Desta vez um jovem rapaz. Todos na cidade estavam com medo. As pessoas acreditavam que se tratasse de um psicopata. Mas nenhum corpo fora encontrado. A polícia estava investigando o caso. O delegado fora chamado na rádio local e dissera que o rapaz não era da cidade e que provavelmente não havia nenhuma ligação entre os dois desparecimentos. Ele pediu calma à população e prometeu solucionar o caso o mais rápido possível.
            A semana que se seguiu correu quase normalmente, a não ser pelas ruas que tornaram-se ainda mais desertas logo que a noite caía. Por falta de clientes, todos os estabelecimentos comerciais estavam fechando suas portas às sete horas da noite. Segundo o que se ouvia através dos boatos que corriam a cidade, os dois jovens teriam sido vistos pela última vez entre dez e onze horas da noite.
            Apesar de todas as coisas estranhas que aconteceram comigo, eu não sentia medo de andar pelas ruas durante a noite. Eu até cheguei a cogitar alguma ligação entre os desaparecimentos e o estranho homem de roupas pretas que eu havia perseguido. Mas cheguei à conclusão de que talvez o rapaz desaparecido pudesse ser o próprio homem, pois eu não o encontrara novamente.
            Havia passado treze dias quando o reencontrei. Era sábado e, depois do almoço, resolvi ir até uma livraria no centro da cidade. Eu queria comprar um livro sobre vampiros que eu tinha visto na vitrine. Era o primeiro livro de uma trilogia. O dia estava chuvoso e muito frio. O céu estava completamente fechado por espessas e pesadas nuvens cor de chumbo. Ventava muito e a todo momento uma garoa fina caía sobre a cidade. Apesar de ser apenas quatro horas da tarde, já estava um pouco escuro, o que fez com que as luzes dos postes se acendessem.
            Entrei na livraria e ouvi as duas moças que trabalham ali comentando sobre o desaparecimento de duas pessoas numa cidade vizinha. Eu perguntei sobre o livro à moça que veio atender-me. Ela procurou no computador e disse que o exemplar da vitrine era o último e que eu tivera sorte de ainda encontrá-lo. Ela sorriu-me e saiu de detrás do balcão para pegar o livro. Eu a segui com o olhar. Era bastante jovem e simpática. Os cabelos lisos, compridos e muito pretos, contrastavam com sua pele clara. Era baixinha e usava saltos muito altos. Ela esticou-se toda, ficando nas pontas dos pés e, estendendo o braço direito, pegou o livro que eu pedira.
            Quando ela retirou o livro do lugar onde estava, eu quase caí devido ao susto que levei ao deparar-me com aquele rosto que fitava-me, do outro lado do vidro. Sua pele era branca como a cal e seus olhos eram incrivelmente azuis e gélidos. Distraído com a moça eu não percebera que um homem alto e todo vestido de preto estava parado diante vitrine. Eu não sabia como, mas estava certo de que era ele.
            Eu olhei para a moça. E quando olhei de volta ele tinha sumido. Ela parecia não tê-lo visto. Corri até a porta da livraria e não o vi. Voltei-me para dentro da loja e deparei-me com a vendedora que fitava-me com ar de interrogação. Perguntei se ela tinha visto alguém lá fora quando pegou o livro e ela respondeu que não. Eu não insisti. Ela olhou-me sem entender, voltou para trás do balcão e perguntou se eu queria que embrulhasse para presente. Eu disse que não, retirei uma nota de cinquenta da carteira e entreguei a ela, dizendo que estava com um pouco de pressa. Ela colocou meu livro dentro de uma sacola de papel com o nome da loja e conferiu o troco, estendendo-os em seguida para mim e agradecendo.
            Saí rapidamente para a rua e procurei algum sinal daquele homem. Havia algumas pessoas passando, mas ninguém que se parecesse com aquele homem que eu estava certo de ter encontrado diversas vezes. Eu já estava começando a duvidar da minha sanidade. Talvez tudo aquilo fosse apenas fruto da minha imaginação. Tentei encontrar um motivo qualquer que pudesse justificar essa possibilidade. Não encontrei nenhum. Sentei-me a uma mesinha na calçada da cafeteria ao lado da livraria e pedi um café ao rapaz que se aproximou. Enquanto saboreava a bebida quente e forte, olhava distraidamente para as fachadas dos antigos prédios à minha frente. Eram todos construções de dois andares, com janelas e portas que dão diretamente para a rua e que seguiam unidos, formando um só bloco, até a base da escadaria que levava à igreja matriz, delimitados apenas pelas cores das suas paredes e por detalhes individuais em sua arquitetura. Acompanhei com certo interesse a enorme parede colorida, cheia de portas e janelas, formada pelos prédios colados uns aos outros, até avistar os primeiros degraus que conduziam à igreja. Paguei o café e preparava-me para ir embora quando por acaso olho para o outro lado da rua e o vejo. O mesmo rosto muito branco, acentuado ainda mais pelo negro de sua roupa. O mesmo modo de andar. Não olhou um segundo sequer para qualquer outra direção senão para frente. Parecia ainda mais alto visto de perto. Fiquei observando por um longo tempo, até que seu vulto negro desaparecesse do meu campo de visão. Tê-lo encontrado em circunstâncias mais comuns não tinham atenuado meu interesse por aquela figura misteriosa. Certamente não tratava-se de um homem qualquer, mas também não poderia ser senão um homem.
Naquela mesma tarde comecei a ler o livro que havia comprado. Era uma estória romântica. Um vampiro e um lobisomem disputando o amor de uma linda jovem. E para completar o cenário a luta entre essas duas classes de seres meio-humanos. No domingo passei boa parte da manhã e da tarde lendo, parando somente para preparar-me para ir à igreja.
            Antes de sair de casa, peguei o livro que estava sobre a mesinha de centro da sala de estar e levei-o para o quarto. Eu o abri e arrumei o marcador de maneira que eu pudesse recomeçar a leitura exatamente no parágrafo em que tinha parado, deixando-o sobre a cama. Peguei meu casaco e o vesti enquanto caminhava até a porta. Quando a abri, eu tive a nítida impressão de que algo tivesse passado por mim e entrado. Estava ventando um pouco e achei que poderia ter sido uma corrente de ar. Eu fechei a porta e saí.
            Durante o culto eu não conseguia concentrar-me. Eu estava muito ansioso. Era como se estivesse esperando por algo que eu não sabia ao certo o que era. Eu sentia como se estivesse sendo chamado e, a todo momento, vinha-me à mente a minha casa. Estava muito frio dentro da igreja e pensei que pudesse ser esse o motivo de minha inquietação. Afinal, quando eu chegasse em casa, poderia ficar confortavelmente aquecido e relaxado.
            Quando o pastor deu a benção final, eu levantei-me rapidamente e dirigi-me para a saída. Despedi-me apressadamente de algumas pessoas que estavam próximas da porta e pus-me a caminho de casa. Passando ao lado do bosque próximo do hotel e do lugar onde eu trabalhava, minha ansiedade pareceu diminuir um pouco. Lembrei-me do homem de preto e senti um calafrio. Não dei importância àquilo. Deviam ser vestígios de lembranças das coisas estranhas que tinham acontecido-me nessas últimas quatro semanas. Ou talvez fosse meu corpo avisando sobre uma possível gripe. A noite estava realmente muito fria. Continuei andando rápido e, à medida que aproximava-me de casa, eu percebi que minha inquietação diminuía gradualmente. Mais uma rua e pronto, eu estava em casa.
            Eu abri a porta da frente e entrei. Logo que a fechei fui tomado por uma espécie de euforia. Eu não conseguia compreender o que estava acontecendo comigo. Eu sentia-me aliviado e estranhamente feliz. Era como se algo que eu tivesse aguardado por um longo tempo fosse acontecer exatamente agora, na minha casa. Coloquei as chaves sobre o aparador, retirei o casaco e coloquei-o dobrado sobre meu braço esquerdo. Ouvi um barulho estranho vindo do meu quarto e encaminhei-me para lá. Eu acendi a luz, entrei e não vi nada fora do lugar. Coloquei meu casaco sobre a cama e percebi que o livro não estava mais sobre ela. Olhei por sobre a escrivaninha à minha esquerda e as mesinhas de cabeceira. Quando pensei em procurar sob a cama, eu senti meu corpo gelar com o enorme susto que levei ao ouvir aquela voz clara e tranquila:
            - É isto que você está procurando?
            Virei-me muito rapidamente e caí sentado sobre a cama quando deparei-me com aquela figura pálida vestida de preto, em pé bem ali na minha frente, sob o portal. Em sua mão esquerda estava o meu livro.
            Eu tentava articular alguma frase, mas nenhum som saía de minha boca. Minha mente era pura confusão. Eu não podia compreender aquilo. Meu cérebro não podia conceber algo assim. Mas eu estava lúcido e eu sabia disso.
            - Você acha realmente que vampiros possam ser assim? - sua voz era forte e agradável.
            Eu ouvia-o e podia compreender o que ele dizia. Porém, eu não conseguia ainda falar. O choque daquela inesperada aparição fora demasiadamente forte.
            - Isso não passa de um monte de bobagens. - ele deu um passo para frente e atirou o livro no cesto de lixo, ao lado da escrivaninha.
            Seu rosto era belo e tinha um ar sério, porém suave. Ele retirou o sobretudo e o dependurou sobre a porta aberta. Seus movimentos eram elegantes. Seus olhos exerciam um poder hipnótico sobre mim. Eu não movi-me um milímetro desde que caíra de costas sobre a cama. O olhar fixo naquele estranho homem.
            - O único prazer que nos interessa é o de escolher a vítima, seduzi-la e então alimentar-nos dela. - ele fez uma pausa e veio devagar até mim. Parou a meio metro de onde estavam meus pés e olhou-me nos olhos. Eu levantei-me e o encarei. Éramos quase da mesma estatura. Ele aproximou-se um pouco. Um sorriso discreto formou-se em sua face por um breve instante. Fiquei pensando que ele estivesse testando-me, esperando talvez que eu tentasse fugir. Ele era um caçador e a caça deveria representar o seu devido papel. Eu mantive-me estático. Ele aproximou-se um pouco mais e eu pude sentir o seu cheiro. Era adocicado e seco. Um perfume sofisticado e muito suave que misturava-se ao cheiro do seu corpo. Ele inclinou delicadamente minha cabeça. Ele sabia que eu não fugiria. Ninguém jamais conseguiria resistir àquele sedutor e fascinante ser. Suas presas cravaram-se em meu pescoço e eu senti o tecido ceder facilmente sob a pressão exercida por elas. Não tive medo. Eu sentia-me incrivelmente tranquilo e sonolento. Não havia sofrimento nem dor. Ao contrário disso, era uma sensação agradável e prazerosa, acompanhada de um sentimento que parecia ser gratidão. Um misto de satisfação e gratidão por ter sido escolhido por aquele tão poderoso e superior ser. Percebi que iria perder o que me restava de consciência e pensei que talvez ele pudesse tornar-me como ele ou pelo menos que deixasse-me viver. Mas nada disso parecia ter importância agora. 

Alessandro Diniz

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