Alienígenas

O operador do sistema de rastreamento espacial observou o monitor à sua frente. O objeto prosseguia seu rumo pré-programado em direção ao nosso planeta. Como a nave já se encontrava relativamente perto, era possível ver o pontinho brilhante se mover tranquilamente na tela, prestes a alcançar uma órbita específica chamada Hohnm, o que daria início ao seu processo de pouso. Distraído, o oficial não viu um de seus superiores se aproximar.
- Boa noite, oficial! – cumprimentou.
- Boa noite, senhor! – ele ergueu-se da cadeira e prestou continência.
- E os nossos visitantes? – quis saber o superior. - O pessoal do alto escalão quer um relatório.
- Continuam a caminho. Como previsto, senhor.
Fazia quase sete meses que a AME, a Agência de Monitoramento Espacial, acompanhava a viagem dos corajosos cosmonautas.
- Vou enviar os relatórios, senhor!
O superior fitou o pequeno ponto luminoso se movendo discretamente na tela. Por alguns instantes, pareceu ao oficial de segurança que sua mente divagava. Depois, como que voltando a si, ele agradeceu e saiu.
O oficial acomodou-se novamente na cadeira. Enviou alguns comandos vocais para o computador à sua frente através da interface de acesso disposta no lado esquerdo de sua cabeça e observou-os aparecerem no prompt de comando, imediatamente seguidos da confirmação: ENVIO BEM-SUCEDIDO.
- Ok! – disse para si mesmo.
Configurou o sistema para enviar-lhe um alerta, caso a espaçonave se desviasse do curso. Colocou seu capacete militar, que possuía um sistema de comunicação móvel, ativou o visor do dispositivo, que deslizou suavemente sobre seus olhos e se dirigiu até a máquina de bebidas alimentares no fim corredor.
Lá fora no espaço, no interior da nave, o tripulante 7 se concentrava em conferir os vetores recebidos para dar início à sua entrada na atmosfera, dentro de poucas horas. Tudo precisaria ser checado cuidadosamente. Não poderia haver erros.
- Vetores checados. Saímos um pouco da rota. Solicitamos correção de curso, base.
Era a voz do comandante chegando aos ouvidos de um dos oficiais da empresa aeroespacial em seu planeta natal. A mensagem levara vinte minutos para chegar aos satélites de comunicação e serem retransmitidos para a base, depois de viajar mais de cinquenta milhões de quilômetros pelo espaço.
- Senhor, a M1 fez contato. – disse o oficial de comunicação. – Eles confirmam o desvio e solicitam novos parâmetros para o cálculo de correção do curso.
- Ok! Confirme o recebimento.
O gerente de comunicação olhou para os engenheiros que trabalhavam para corrigir o curso da nave. As mentes mais brilhantes do planeta estavam naquela sala, frente a um dos sistemas computacionais mais poderosos que existiam. Levaria alguns minutos para que o computador recalculasse a rota de entrada.
- Está feito. – afirmou o analista de dados. – O novo curso já está a caminho.
- Oficial, confirme o envio.
- Confirmado, senhor.
Essa era a última checagem de correção de trajetória antes do início do programa para o pouso. A partir daquele momento, não havia mais nada que pudesse ser feito. A ansiedade era grande na sala de controle.
Distante dali, frente ao painel de controle da espaçonave, o tripulante 7 ficou imaginando como seria tudo aquilo. Era a maior experiência já realizada por sua raça, estabelecer uma colônia permanente naquele planeta hostil.  Estava ansioso. Todos estavam. A preocupação com o pouso era grande. Se algo desse errado, o veículo poderia se espatifar no solo. Neste caso, a morte seria instantânea. Mas havia ainda o risco da espaçonave atravessar a atmosfera, caso a entrada se desse em uma órbita muito rasa, e ser jogada para longe no espaço. Mas com toda a alta tecnologia disponível naquela nave, as probabilidades de que ocorresse um erro tão grande eram mínimas. Contudo, se alguma falha no sistema elétrico ou no computador de bordo ocorresse e a nave passasse direto pela atmosfera, seria impossível uma segunda tentativa de entrada. Seus tripulantes estariam condenados a esperar pela morte, vagando sem rumo pelo espaço infinito.
A tripulante 5 olhou pela minúscula janela circular lateral. Sentiu saudades de casa, de sua família. Nunca mais os deliciosos almoços com os pais, nunca mais sua confortável cama. Estavam agora a cerca de vinte mil quilômetros do destino e já era possível ver com nitidez o planeta que seria o novo lar daqueles intrépidos desbravadores. Observando suas cores desérticas, a cosmonauta jamais poderia imaginar que há milhares de anos atrás aquele planeta estava no auge de seu esplendor e fervilhava com a vida. Vastos oceanos de água líquida cobriam sua superfície, não havia deserto em parte alguma, enormes cidades verticais podiam ser vistas por toda parte e sua população era numerosa. Porém, a ganância e a fome de poder dos governantes de algumas daquelas cidades-estado acabou desencadeando sua terceira guerra global, culminando com a sua destruição por armas nucleares.
Em solo, num dos inúmeros corredores da AME, o oficial mal tinha terminado de beber quando ouviu o sinal sonoro de alarme emitido pelo sistema de monitoramento. A lente de seu visor começou a emitir uma luz vermelha que piscava a cada segundo.
- A nave saiu do rumo. – pensou.
Ele correu pelo corredor e entrou na sala. De volta a seu posto, frente ao monitor, ele pôde constatar que se tratava apenas de uma correção de curso. Deu alguns comandos ao sistema para que recalculasse o local aproximado do pouso. Em poucos segundos um novo relatório foi apresentado na tela. Ativou seu comunicador de voz e se conectou com seu superior.
- Senhor, enviei um novo relatório. Eles estão a caminho.
O sistema de navegação da espaçonave emitiu um aviso de mensagem. Era a confirmação da atualização do sistema.
- Tripulação, preparar para o início do programa de pouso. – alertou o comandante.
Já devidamente vestidos com os trajes espaciais, os tripulantes se dirigiram para seus assentos, afivelaram seus cintos de segurança, prendendo-se firmemente a eles. Em seguida, checaram todos os procedimentos para o pouso.
- Ok para a fase final! – confirmaram todos.
O computador iniciou a execução do programa de entrada. A espaçonave adentrou a atmosfera do planeta vermelho. Em pouco tempo o atrito com o ar foi se tornando maior e o veículo espacial começou a trepidar violentamente. Estavam a mais de vinte mil quilômetros por hora. A temperatura do lado de fora chegava próxima a oito mil graus centígrados, devido à fricção com o ar atmosférico. A inclinação de entrada tinha sido perfeita e a nave começava a desacelerar rapidamente. Em pouco mais de três minutos, sua velocidade caiu para aproximadamente mil e setecentos quilômetros por hora. O computador alterou seu curso e ela começou a traçar um caminho em forma de “S” no céu vermelho. O enorme paraquedas supersônico se abriu e os tripulantes puderam sentir a desaceleração abrupta. Apenas um solavanco. Alguns segundos depois, a espaçonave começou sua descida vertical rumo ao solo. Os poderosos retrofoguetes da M-1 foram acionados, sua velocidade diminuiu ainda mais e ela descia agora a aproximados trezentos quilômetros por hora. Os retrofoguetes atingiram sua potência máxima. Quando atingiu a altitude adequada, os amortecedores de impacto foram ativados, colocando-se na posição para realizar o pouso.
- Entramos na fase final para pousar. – informou o comandante, através do intercomunicador em seu capacete.
A forte trepidação na cabine se tornara quase um leve sacolejar. Faltavam poucos metros para que a M-1 tocasse o solo. O paraquedas foi ejetado e agora a nave descia apenas com o auxilio dos retrofoguetes. A velocidade de queda se acelerou um pouco.
- Desaceleração ok. – os tripulantes ouviram o comandante dizer.
A apreensão ainda era grande e a curta frase soara em seus ouvidos como um agradável acalanto.
Em frente ao monitor de rastreamento na base militar científica da grande cidade subterrânea, o oficial de monitoramento acompanhava com interesse o pouso da M-1. Ele chamou seu superior pelo intercomunicador.
- Senhor, eles pousaram. Os alienígenas pousaram.
- Confirme o pouso, oficial.
- Afirmativo. Eles pousaram, senhor.
- Ok! Iniciar imediatamente o programa de vigilância avançado. Quero vigilância ininterrupta sobre os visitantes.
O oficial de monitoramento iniciou o sistema de vigilância de solo. Os monitores da parede à sua frente se acenderam e imagens da M-1 apareceram, mostradas de vários ângulos.
Seu substituto acabara de chegar e o cumprimentou.
- Eles conseguiram mesmo chegar. – disse ele, ainda um pouco incrédulo com a coragem dos cosmonautas.
- Se fôssemos nós no planeta deles, já estaríamos cercados e rendidos. – respondeu o outro.
- Eles morrerão lá fora. É impossível viver em condições tão extremas.
O substituto concordou.
- Bem, agora é com você. – disse o oficial.
Ele levantou-se de sua cadeira e entregou o posto ao colega.
Na Marte-1, os cosmonautas comemoravam efusivamente o pouso perfeito no planeta vermelho. Na Terra, a euforia era a mesma. Em todos os países as pessoas acompanhavam atônitas as últimas notícias sobre a Missão Marte. Logo começaram a chegar as primeiras imagens dos oito corajosos tripulantes, quatro homens e quatro mulheres, que partiram para nunca mais voltar. Desde que haviam partido, suas vidas tinham se tornado um espetáculo público, o maior show de todos os tempos.

Alessandro Diniz
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