Suspeita Improvável
Ouvi
Ana descendo as escadas. Ela se aproximou e me beijou na boca.
– Feliz aniversário!
– Obrigado! Quarenta anos.
Retribui-lhe o beijo e
observei-a por um instante.
– Nem parece. – ela disse,
sorrindo.
– Sempre me dizem isso. Só
não sei se é verdade.
Ela abraçou-me.
– É verdade, bobo! Pode
acreditar.
Quando peguei as chaves para sair, ela me
perguntou se eu chegaria
mais cedo.
– Esse é meu plano. – respondi, dando-lhe um beijo de
despedida.
Depois de uma proveitosa noite de sono, meu corpo estava
descansado e eu sentia-me cheio de disposição. Entrei na caminhonete, liguei o
rádio e pus-me a caminho da empresa. Enquanto dirigia pelas ruas do centro da
cidade, fiquei pensando no meu último escolhido. Um homem comum, como tantos outros
que há por aí. Foi tão fácil, que eu mesmo mal podia acreditar. Parei no sinal
e aproveitei para observar as pessoas atravessando a rua, andando pelas
calçadas e nos carros próximos a mim. Cada uma delas seguindo para seu destino,
seu trabalho, vivendo sua vida normal. Sua rotina diária. Cada uma delas um
alvo em potencial. O sinal abriu. Segui minha rota costumeira.
No
instante em que cheguei, fui recebido com entusiamadas felicitações pela Júlia,
minha secretária. Agradeci. Entrei em meu escritório e chequei a agenda. Não
havia nada importante. O dia estava livre, para fazer o que eu bem entendesse. Exatamente como o planejado.
Liguei
o computador para avaliar alguns relatórios. Minutos depois, Júlia entrou
trazendo-me um café. Ela colocou a xícara sobre a mesa, disse que tinha um
pacote para mim e saiu, voltando em seguida com um presente.
-
Espero que goste.
Eu
abri o pacote com cuidado, sem rasgar o papel colorido que o embrulhava. Era um
par de luvas de couro pretas.
-
Uau! Obrigado, Júlia! É claro que gostei. Gostei muito!
-
Ouvi o senhor dizer que precisava comprar luvas novas. Então...
-
Deste jeito terei que aumentar o seu salário.
Rimos
juntos quando eu disse aquilo.
-
Júlia, vou ao banco resolver algumas coisas e depois vou para casa. Mas se
precisar, você sabe, pode me ligar.
-
Tudo bem, senhor Ricardo! Não se preocupe.
Assim
que saí do banco, após discutir investimentos com o gerente, peguei a rodovia e
me dirigi para uma cidade próxima. Entrei em uma estrada vicinal, que levava a
um bairro mais afastado, na parte rural do município.
Depois
de algum tempo seguindo pela poeirenta estradinha de terra, avistei uma jovem
mulher seguindo na mesma direção. Hoje parecia ser meu dia de sorte, pensei. Reduzi
a velocidade ao aproximar-me e parei ao seu lado.
-
Bom dia! – eu a cumprimentei, fazendo com que ela parasse de caminhar e olhasse
para mim.
Ela
fitou-me sem responder. Parecia ser uma moça bastante simples. Era bonita. A
pele morena. Os cabelos pretos lisos emolduravam seu rosto e caiam-lhe sobre os
ombros. Seus olhos castanhos escuros me observavam com certo receio, como um
animalzinho indefeso diante de um provável predador.
- Eu
acho que estou perdido. Você sabe se a fazenda Santo Antônio fica por aqui?
-
Não sei não. – respondeu-me timidamente, recomeçando a andar.
Sua aparente
apatia e a visível cautela me pegaram de surpresa. Acelerei um pouco e a
alcancei novamente.
-
Quer uma carona? Eu vou procurar um lugar prá virar o carro.
Ela
agradeceu, mas continuou o caminho, recusando minha oferta.
Segui
em frente. A estrada, neste trecho, era cercada por plantações de capim, usado
para alimentar o gado. Encontrei uma entrada de acesso para o capinzal, à minha
direita. Entrei e desliguei os motores. Desci da caminhonete e abri a porteira
de arame farpado. Fui para a beira da estrada e, ficando de uma maneira que não
pudesse ser visto, esperei que se aproximasse.
Ela
veio caminhando rápido, os passos firmes de quem deseja chegar logo em casa. E
então passou bem na minha frente. Eu pude sentir o seu cheiro, como uma
adocicada fumaça invisível e leve, pairando logo atrás de cada passo. Num
movimento veloz e calculado, pulei atrás dela, tapando-lhe a boca com a mão
esquerda e mobilizando-a com o braço direito. Puxei-a para dentro do capinzal. Ela
se debatia freneticamente e tentava gritar. Mas seus gritos eram sufocados por
mim, transformando-se em gemidos.
-
Fique calma! Não vou fazer nada com você.
Ela
pareceu não ouvir. Enquanto eu a puxava para uma parte onde o capim já havia
sido cortado, formando uma reentrância na plantação, a moça esperneava, em vão.
-
Acalme-se! – ordenei. –Eu já disse que não vou fazer nada com você.
Eu havia parado. Segurei-a com força e repeti
que não a faria mal. Ela
parou de resistir e seu
corpo relaxou um pouco.
- Escuta. Eu vou deitar você, mas eu não vou
te machucar. – disse eu,
tentando fazê-la deitar-se
sobre as folhas de capim seco que cobriam o chão.
Ela recomeçou a se debater. Mais uma vez eu a venci.
Deitado
sobre ela, a mão esquerda ainda em sua boca, meu corpo impossibilitava-lhe
qualquer movimento.
Um frenesi louco tomara conta de mim. Eu estava muito
excitado. Toda aquela resistência tinha me deixado ainda mais motivado,
desejando ardentemente fazer mais uma vez. Afundei meu rosto em seu pescoço. O
cheiro dela invadia-me as narinas, estimulante, sedutor.
Ergui-me
um pouco e olhei-a. O rosto apavorado, os olhos grandes de pavor. Peguei seu
pescoço com a outra mão, a esquerda em sua boca e nariz, ambas apertando
fortemente. Sua face começou a mudar, transfigurada em uma máscara de horror e
medo. Gotas de suor apareciam em sua testa. E depois a entrega. A inércia. O
silêncio.
De volta à caminhonete, recompus-me. Penteei os cabelos,
arrumei a roupa, limpei o rosto com papel toalha. Dei a partida e segui de
volta para a rodovia. À medida que eu me distanciava do meu feito, uma paz
anestesiante tomava conta de mim. O sentimento de satisfação que me invadira
era indescritível. Procurei aproveitar toda aquela sensação agradável que
sentia, o vento fresco entrando pela janela aberta, a eletrificante energia que
envolvia a mim e tudo ao meu redor.
Mais tarde, na festa que Ana preparara para mim, andando
por nossa sala de estar e falando com nossos convidados, ouvi alguém comentar
algo sobre o assassinato da moça. Olhei discretamente para trás e vi uma de
nossas vizinhas conversando com Nicole, uma amiga de minha esposa. Nós nunca
havíamos nos dado bem. Apenas nos aturávamos, pois ambos amávamos muito Ana e
não queríamos magoá-la. Olhei para meu relógio. Pedi licença para meus amigos e
fui até o escritório. Liguei a TV. Estava no intervalo comercial e eu fiquei
aguardando a segunda edição do noticiário local voltar. A vinheta do programa
termina e a apresentadora entra anunciando a próxima matéria:
- Hoje, por volta das onze da manhã, a jovem Maria R.
Ramirez, de vinte anos, foi encontrada morta em uma plantação de capim de um
bairro rural de Igrejinha. Segundo o investigador chefe da delegacia de
homicídios da região, a moça teria sido morta por asfixia, não tendo sido
encontrado sinais de que ela tivesse sido violentada.
O canal mostra uma foto da moça e em seguida volta com a
apresentadora.
- Questionado sobre se haveria uma ligação deste crime
com uma dezena de outros casos de assassinatos sem motivos aparentes ocorridos
na região nos últimos três anos e a possibilidade de que estes casos pudessem
ser obra de um assassino em série, o chefe da investigação disse que não
poderia afirmar nada de concreto no momento. Mas esclareceu que as
investigações estão em andamento e que, num futuro próximo, eles acreditam que
poderão solucionar este caso.
Entra um vídeo mostrando os investigadores chegando na
delegacia regional, cercados por repórteres e fotógrafos, num tumultuado empurra-empurra
para ver quem consegue alguma palavra e uma boa foto.
- O senhor acha que se trata de um assassino em série? –
pergunta um repórter da emissora local.
- Não podemos afirmar nada ainda. – ele responde, abrindo
caminho entre os profissionais da mídia.
- Há alguma pista? – grita um rapaz, apontando o
microfone na sua face.
- Sim. Já temos uma pista. Mas não podemos revelar nada
agora.
Eu sorrio.
Neste momento, algo me chama a atenção. Eu me volto para a
porta e me deparo com Nicole, parada atrás de mim, o olhar fixo, acusatório, como
se deles saíssem raios.
- Foi você, não foi? – rispidamente, ela pergunta.
- Do quê você está falando?
- Não se faça de desentendido.
Ela olhou-me, daquela forma como sempre fazia, desde o
último escolhido ter aparecido nos jornais e a mídia começar a divulgar a
história de assassinatos em série. Eu estava bem aqui, Ana e a amiga
conversavam na cozinha. Assistindo à reportagem que falava sobre a penúltima
morte, eu disse para mim mesmo:
- Vocês nunca poderiam imaginar.
Nicole tinha acabado de entrar e ouvira.
Ela perguntou-me o que eu tinha dito. Eu não respondi.
Dei-lhe as costas e saí.
- Eu ouvi você dizer aquela noite. Ninguém nunca
desconfiaria, não é? Um homem educado, casado, elegante e rico. Alguém que vai
à igreja todos os domingos, faz caridade... Contribuinte da sociedade.
- Você está louca? Não sei do quê você fala. – respondi,
secamente.
- Foi você que matou todas aquelas pessoas. Eu sei disso.
– ela disparou.
E então eu perdi o controle. Segurei-a pelos braços e a
sacudi fortemente.
- Cale-se! Você não sabe o que diz.
Nicole desvencilhou-se e fitou-me, o olhar cheio de
fúria, encarando-me desafiadoramente:
- Você vai ser preso. E eu vou estar lá prá ver.
Ela virou-se e saiu.
Eu a segui. Do corredor, avistei-a conversando com um
homem que eu não conhecia. Ela o deixou e foi falar com Ana. Elas trocaram
algumas palavras e se dirigiram para a porta da frente. Minha esposa parecia
confusa e contrariada. Virei-me rapidamente e corri até a cozinha, saí no
jardim dos fundos e fui para a garagem. Entrei no veículo e dei a partida.
- Eu devia tê-la matado naquela noite. Maldita!
Nicole não morava muito longe. Eu sabia o trajeto que ela
sempre fazia. Com certeza eu a posso alcançar, pensei, já guiando pela rua, no
sentido de sua casa.
A caminhonete corria alucinadamente. Não foi difícil
encontrá-la. Avistei seu carro, acelerei ainda mais e joguei-me bem à sua
frente, bloqueando-lhe a passagem. Ela pisou forte nos freios e, por um triz,
quase se choca contra mim. Eu pulei furiosamente da caminhonete, fui até a
porta do sedan, abri-a e puxei-a violentamente por um braço, enquanto
tapava-lhe a boca com a mão esquerda. Olhei para os lados. A rua estava
completamente deserta. Eu arrasto-a para fora, tentando sufocá-la. Ela morde
minha mão, mas eu continuo a tentar asfixiá-la. Eu solto-lhe o braço e ela cai
de costas. Ela tenta gritar, mas antes que ela consiga, salto para cima dela,
impedindo-a. Jogo-me sobre ela e a tento estrangular. Ouço barulho de um carro
aproximar-se rapidamente. Dois homens saem de dentro dele e apontam armas para
mim.
- Polícia! Ponha as mãos sobre a cabeça! – grita um
deles.
É o homem com quem Nicole havia falado antes de sair.
Algemado, sou conduzido para o carro parado ao lado.
O homem a ajuda levantar-se e pergunta se ela está bem.
Ela faz que sim com a cabeça e olha para mim.
- Me leve até lá. – ela pede.
Ela se aproxima, apoiada pelo policial. Enquanto ele a
auxilia, eu o observo. E então eu o reconheço. Era o investigador chefe, aquele
que havia falado na TV. Em casa, tomado pela fúria, eu não prestara a atenção
nele e não o reconhecera.
- Eu disse que você seria preso. – disse Nicole. Ela fez
uma pausa, como que para tomar forças. – Eu disse que eu estaria lá para ver.
Mas eu não pensei que fosse ser hoje. Feliz aniversário! Assassino!
- Eu não fiz nada. Você está louca. – eu disse,
friamente, encarando-a.
- Então, é melhor as marcas dos seus pneus serem
diferentes das marcas encontradas em pelo menos três cenas de crimes. – ela
disse.
Em seus lábios, um sorriso torto de
satisfação e histeria. Em mim, apenas a raiva por não tê-la matado antes.

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