Suspeita Improvável

Logo que o despertador tocou, eu levantei–me sem fazer rodeios. Olhei meu reflexo no espelho do banheiro e gostei do que vi. Ter cortado os cabelos realmente foi uma ótima ideia. Fez-me parecer mais jovem. Conferi a barba, coloquei o pente sobre o balcão da pia e desci para a cozinha.
Ouvi Ana descendo as escadas. Ela se aproximou e me beijou na boca.
– Feliz aniversário!
– Obrigado! Quarenta anos.
Retribui-lhe o beijo e observei-a por um instante.
– Nem parece. – ela disse, sorrindo.
– Sempre me dizem isso. Só não sei se é verdade.
Ela abraçou-me.
– É verdade, bobo! Pode acreditar.
Quando peguei as chaves para sair, ela me perguntou se eu chegaria
mais cedo.
            – Esse é meu plano. – respondi, dando-lhe um beijo de despedida.
            Depois de uma proveitosa noite de sono, meu corpo estava descansado e eu sentia-me cheio de disposição. Entrei na caminhonete, liguei o rádio e pus-me a caminho da empresa. Enquanto dirigia pelas ruas do centro da cidade, fiquei pensando no meu último escolhido. Um homem comum, como tantos outros que há por aí. Foi tão fácil, que eu mesmo mal podia acreditar. Parei no sinal e aproveitei para observar as pessoas atravessando a rua, andando pelas calçadas e nos carros próximos a mim. Cada uma delas seguindo para seu destino, seu trabalho, vivendo sua vida normal. Sua rotina diária. Cada uma delas um alvo em potencial. O sinal abriu. Segui minha rota costumeira.
No instante em que cheguei, fui recebido com entusiamadas felicitações pela Júlia, minha secretária. Agradeci. Entrei em meu escritório e chequei a agenda. Não havia nada importante. O dia estava livre, para fazer o que eu bem entendesse.  Exatamente como o planejado.
Liguei o computador para avaliar alguns relatórios. Minutos depois, Júlia entrou trazendo-me um café. Ela colocou a xícara sobre a mesa, disse que tinha um pacote para mim e saiu, voltando em seguida com um presente.
- Espero que goste.
Eu abri o pacote com cuidado, sem rasgar o papel colorido que o embrulhava. Era um par de luvas de couro pretas.
- Uau! Obrigado, Júlia! É claro que gostei. Gostei muito!
- Ouvi o senhor dizer que precisava comprar luvas novas. Então...
- Deste jeito terei que aumentar o seu salário.
Rimos juntos quando eu disse aquilo.
- Júlia, vou ao banco resolver algumas coisas e depois vou para casa. Mas se precisar, você sabe, pode me ligar.
- Tudo bem, senhor Ricardo! Não se preocupe.
Assim que saí do banco, após discutir investimentos com o gerente, peguei a rodovia e me dirigi para uma cidade próxima. Entrei em uma estrada vicinal, que levava a um bairro mais afastado, na parte rural do município.
Depois de algum tempo seguindo pela poeirenta estradinha de terra, avistei uma jovem mulher seguindo na mesma direção. Hoje parecia ser meu dia de sorte, pensei. Reduzi a velocidade ao aproximar-me e parei ao seu lado.
- Bom dia! – eu a cumprimentei, fazendo com que ela parasse de caminhar e olhasse para mim.
Ela fitou-me sem responder. Parecia ser uma moça bastante simples. Era bonita. A pele morena. Os cabelos pretos lisos emolduravam seu rosto e caiam-lhe sobre os ombros. Seus olhos castanhos escuros me observavam com certo receio, como um animalzinho indefeso diante de um provável predador.
- Eu acho que estou perdido. Você sabe se a fazenda Santo Antônio fica por aqui?
- Não sei não. – respondeu-me timidamente, recomeçando a andar.
Sua aparente apatia e a visível cautela me pegaram de surpresa. Acelerei um pouco e a alcancei novamente.
- Quer uma carona? Eu vou procurar um lugar prá virar o carro.
Ela agradeceu, mas continuou o caminho, recusando minha oferta.
Segui em frente. A estrada, neste trecho, era cercada por plantações de capim, usado para alimentar o gado. Encontrei uma entrada de acesso para o capinzal, à minha direita. Entrei e desliguei os motores. Desci da caminhonete e abri a porteira de arame farpado. Fui para a beira da estrada e, ficando de uma maneira que não pudesse ser visto, esperei que se aproximasse.
Ela veio caminhando rápido, os passos firmes de quem deseja chegar logo em casa. E então passou bem na minha frente. Eu pude sentir o seu cheiro, como uma adocicada fumaça invisível e leve, pairando logo atrás de cada passo. Num movimento veloz e calculado, pulei atrás dela, tapando-lhe a boca com a mão esquerda e mobilizando-a com o braço direito. Puxei-a para dentro do capinzal. Ela se debatia freneticamente e tentava gritar. Mas seus gritos eram sufocados por mim, transformando-se em gemidos.
- Fique calma! Não vou fazer nada com você.
Ela pareceu não ouvir. Enquanto eu a puxava para uma parte onde o capim já havia sido cortado, formando uma reentrância na plantação, a moça esperneava, em vão.
- Acalme-se! – ordenei. –Eu já disse que não vou fazer nada com você.
Eu havia parado. Segurei-a com força e repeti que não a faria mal. Ela
parou de resistir e seu corpo relaxou um pouco.
- Escuta. Eu vou deitar você, mas eu não vou te machucar. – disse eu,
tentando fazê-la deitar-se sobre as folhas de capim seco que cobriam o chão.
            Ela recomeçou a se debater. Mais uma vez eu a venci.
Deitado sobre ela, a mão esquerda ainda em sua boca, meu corpo impossibilitava-lhe qualquer movimento.
            Um frenesi louco tomara conta de mim. Eu estava muito excitado. Toda aquela resistência tinha me deixado ainda mais motivado, desejando ardentemente fazer mais uma vez. Afundei meu rosto em seu pescoço. O cheiro dela invadia-me as narinas, estimulante, sedutor.
Ergui-me um pouco e olhei-a. O rosto apavorado, os olhos grandes de pavor. Peguei seu pescoço com a outra mão, a esquerda em sua boca e nariz, ambas apertando fortemente. Sua face começou a mudar, transfigurada em uma máscara de horror e medo. Gotas de suor apareciam em sua testa. E depois a entrega. A inércia. O silêncio.
            De volta à caminhonete, recompus-me. Penteei os cabelos, arrumei a roupa, limpei o rosto com papel toalha. Dei a partida e segui de volta para a rodovia. À medida que eu me distanciava do meu feito, uma paz anestesiante tomava conta de mim. O sentimento de satisfação que me invadira era indescritível. Procurei aproveitar toda aquela sensação agradável que sentia, o vento fresco entrando pela janela aberta, a eletrificante energia que envolvia a mim e tudo ao meu redor.
            Mais tarde, na festa que Ana preparara para mim, andando por nossa sala de estar e falando com nossos convidados, ouvi alguém comentar algo sobre o assassinato da moça. Olhei discretamente para trás e vi uma de nossas vizinhas conversando com Nicole, uma amiga de minha esposa. Nós nunca havíamos nos dado bem. Apenas nos aturávamos, pois ambos amávamos muito Ana e não queríamos magoá-la. Olhei para meu relógio. Pedi licença para meus amigos e fui até o escritório. Liguei a TV. Estava no intervalo comercial e eu fiquei aguardando a segunda edição do noticiário local voltar. A vinheta do programa termina e a apresentadora entra anunciando a próxima matéria:
            - Hoje, por volta das onze da manhã, a jovem Maria R. Ramirez, de vinte anos, foi encontrada morta em uma plantação de capim de um bairro rural de Igrejinha. Segundo o investigador chefe da delegacia de homicídios da região, a moça teria sido morta por asfixia, não tendo sido encontrado sinais de que ela tivesse sido violentada.
            O canal mostra uma foto da moça e em seguida volta com a apresentadora.
            - Questionado sobre se haveria uma ligação deste crime com uma dezena de outros casos de assassinatos sem motivos aparentes ocorridos na região nos últimos três anos e a possibilidade de que estes casos pudessem ser obra de um assassino em série, o chefe da investigação disse que não poderia afirmar nada de concreto no momento. Mas esclareceu que as investigações estão em andamento e que, num futuro próximo, eles acreditam que poderão solucionar este caso.
            Entra um vídeo mostrando os investigadores chegando na delegacia regional, cercados por repórteres e fotógrafos, num tumultuado empurra-empurra para ver quem consegue alguma palavra e uma boa foto.
            - O senhor acha que se trata de um assassino em série? – pergunta um repórter da emissora local.
            - Não podemos afirmar nada ainda. – ele responde, abrindo caminho entre os profissionais da mídia.
            - Há alguma pista? – grita um rapaz, apontando o microfone na sua face.
            - Sim. Já temos uma pista. Mas não podemos revelar nada agora.
            Eu sorrio.
            Neste momento, algo me chama a atenção. Eu me volto para a porta e me deparo com Nicole, parada atrás de mim, o olhar fixo, acusatório, como se deles saíssem raios.
            - Foi você, não foi? – rispidamente, ela pergunta.
            - Do quê você está falando?
            - Não se faça de desentendido.
            Ela olhou-me, daquela forma como sempre fazia, desde o último escolhido ter aparecido nos jornais e a mídia começar a divulgar a história de assassinatos em série. Eu estava bem aqui, Ana e a amiga conversavam na cozinha. Assistindo à reportagem que falava sobre a penúltima morte, eu disse para mim mesmo:
            - Vocês nunca poderiam imaginar.
            Nicole tinha acabado de entrar e ouvira.
            Ela perguntou-me o que eu tinha dito. Eu não respondi. Dei-lhe as costas e saí.
            - Eu ouvi você dizer aquela noite. Ninguém nunca desconfiaria, não é? Um homem educado, casado, elegante e rico. Alguém que vai à igreja todos os domingos, faz caridade... Contribuinte da sociedade.
            - Você está louca? Não sei do quê você fala. – respondi, secamente.
            - Foi você que matou todas aquelas pessoas. Eu sei disso. – ela disparou.
            E então eu perdi o controle. Segurei-a pelos braços e a sacudi fortemente.
            - Cale-se! Você não sabe o que diz.
            Nicole desvencilhou-se e fitou-me, o olhar cheio de fúria, encarando-me desafiadoramente:
            - Você vai ser preso. E eu vou estar lá prá ver.
            Ela virou-se e saiu.
            Eu a segui. Do corredor, avistei-a conversando com um homem que eu não conhecia. Ela o deixou e foi falar com Ana. Elas trocaram algumas palavras e se dirigiram para a porta da frente. Minha esposa parecia confusa e contrariada. Virei-me rapidamente e corri até a cozinha, saí no jardim dos fundos e fui para a garagem. Entrei no veículo e dei a partida.
            - Eu devia tê-la matado naquela noite. Maldita!
            Nicole não morava muito longe. Eu sabia o trajeto que ela sempre fazia. Com certeza eu a posso alcançar, pensei, já guiando pela rua, no sentido de sua casa.
            A caminhonete corria alucinadamente. Não foi difícil encontrá-la. Avistei seu carro, acelerei ainda mais e joguei-me bem à sua frente, bloqueando-lhe a passagem. Ela pisou forte nos freios e, por um triz, quase se choca contra mim. Eu pulei furiosamente da caminhonete, fui até a porta do sedan, abri-a e puxei-a violentamente por um braço, enquanto tapava-lhe a boca com a mão esquerda. Olhei para os lados. A rua estava completamente deserta. Eu arrasto-a para fora, tentando sufocá-la. Ela morde minha mão, mas eu continuo a tentar asfixiá-la. Eu solto-lhe o braço e ela cai de costas. Ela tenta gritar, mas antes que ela consiga, salto para cima dela, impedindo-a. Jogo-me sobre ela e a tento estrangular. Ouço barulho de um carro aproximar-se rapidamente. Dois homens saem de dentro dele e apontam armas para mim.
            - Polícia! Ponha as mãos sobre a cabeça! – grita um deles.
            É o homem com quem Nicole havia falado antes de sair.
            Algemado, sou conduzido para o carro parado ao lado.
            O homem a ajuda levantar-se e pergunta se ela está bem. Ela faz que sim com a cabeça e olha para mim.
            - Me leve até lá. – ela pede.
            Ela se aproxima, apoiada pelo policial. Enquanto ele a auxilia, eu o observo. E então eu o reconheço. Era o investigador chefe, aquele que havia falado na TV. Em casa, tomado pela fúria, eu não prestara a atenção nele e não o reconhecera.
            - Eu disse que você seria preso. – disse Nicole. Ela fez uma pausa, como que para tomar forças. – Eu disse que eu estaria lá para ver. Mas eu não pensei que fosse ser hoje. Feliz aniversário! Assassino!
            - Eu não fiz nada. Você está louca. – eu disse, friamente, encarando-a.
            - Então, é melhor as marcas dos seus pneus serem diferentes das marcas encontradas em pelo menos três cenas de crimes. – ela disse.
            Em seus lábios, um sorriso torto de satisfação e histeria. Em mim, apenas a raiva por não tê-la matado antes.

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