A Cabana de Madeira
As férias de julho finalmente tinham chegado.
Cal e sua turma passaram o último mês planejando a subida da montanha e a
ansiedade que sentiam logo deu lugar a uma animação quase infantil. Nem mesmo o
imprevisto, que impedira que seu pai os levasse em sua velha caminhonete até a
metade do caminho, pôde enfraquecer-lhes o entusiasmo. Estava tudo pronto e
nada os impediria.
Haviam combinado como ponto de encontro o
pátio da antiga estação ferroviária, bem no centro da cidade. Ficava a pouco
mais de quinhentos metros do início da estradinha de terra que os conduziria
para a montanha e, como a cidade era pequena, embora morassem em bairros
diferentes, não demorariam mais que dez minutos para chegar até lá. Uma curta caminhada.
Cal e Bia foram os primeiros a chegar. O
jovem casal estava namorando há dois anos e ele dormira na casa dela, para que
sua mãe os ajudasse com as mochilas e os deixasse na estação às onze da manhã. Marco
e Pedro, os gêmeos, chegaram em seguida.
- E aí, casal? – cumprimentou Marco, sendo instantaneamente
imitado pelo irmão.
- Oi, chato! – respondeu a menina,
voltando-se para Marco, fingindo indiferença. – Oi, Pedro! – agora em tom
divertido.
Os gêmeos deixaram as pesadas mochilas no
chão e apertaram a mão do amigo.
- Onde está aquele peso morto? – quis saber
Marco, referindo-se a Rafael.
- Bem atrás de você, vacilão! – ele falou em
voz bem alta. Todos olharam para ele e riram.
Os quatro amigos se conheciam desde a
infância. Rafael e Carlos moraram na mesma rua, tornando-se amigos inseparáveis
desde os cinco ou seis anos de idade. Os gêmeos vieram de outra cidade e o
grupo se formou quando começaram a estudar na mesma sala, no terceiro ano do
ensino fundamental. Bia juntou-se ao bando quando começou a namorar Cal. O
humor fácil e o jeito carinhoso rapidamente conquistaram o apreço dos garotos,
que a tornaram sua protegida.
- Então? – indagou Cal, fitando os amigos. –
Vamos?
Os garotos pegaram suas mochilas e Bia, que
tinha organizado a compra de provimentos para a empreitada montanha acima, pôs
se a distribuir algumas sacolas entre eles.
- Rafa, como você está carregando uma
barraca, leva essas duas. Os gêmeos ficam com essas. – disse ela, indicando aquelas
as quais cada um deles deveria pegar. - O Cal vai levar a outra barraca...
- E a água? – interrompeu Marco.
- Cada um de vocês pega uma. E eu levo duas.
Pedro abriu o pacote de garrafas de água
mineral e começou a distribuí-las aos outros.
- Legal, Pedro! – disse Bia, em sinal de
aprovação. – E essas sacolas, aqui do lado, são minhas e do Cal. – finalizou,
fitando o namorado.
O rapaz assentiu com a cabeça e recolheu duas
que pareciam estar um pouco mais pesadas.
- Hashtag,
partiu montanha? – perguntou Marco, fazendo piada, provocando uma risada geral.
E partiram para sua tão esperada aventura.
Mal haviam começado a subir a esburacada
estrada de terra, Rafael parou e pôs-se a procurar algo em sua mochila.
- Ah, não! – exclamou. – Esqueci a minha
escova de dentes.
- Mas é um lesado mesmo! – reclamou Marco.
Todos pararam e se voltaram para ele.
- O Marco empresta a dele. – provocou Bia, sorrindo
divertida. Pedro e Carlos riram gostosamente.
- Empresta a sua. – retrucou ele.
- Não posso ficar sem escovar os dentes
durante dois dias. – choramingou. – Esperem aqui. Eu vou correndo no
supermercado comprar uma.
- Já é quase meio-dia, gente. Se demorarmos
muito, não chegamos no acampamento antes de escurecer. – avisou Carlos, um
pouco contrariado.
- Vai logo, cara! O que está esperando? –
incitou Marco.
- Deixa que eu vou. – ofereceu o outro gêmeo,
descendo ao encontro do amigo, que ficara um pouco atrás. – Eu ando mais
depressa.
O supermercado ficava na avenida, atrás da
estação. Apesar de estarem a menos de um quilômetro do lugar, isso os atrasaria
no mínimo uns trinta minutos.
- Compre a mais barata que tiver. – Rafael
retirou uma nota de dez da carteira e entregou a Pedro.
- Além de tudo é pão-duro! – brincou o outro,
antes de recomeçar a descer.
Enquanto esperavam, Cal e Bia sentaram-se sob
a sombra de uma arvorezinha à beira da estrada. Rafael jogava no celular, ao
lado do casal. Marco, sempre agitado, atirava pedras morro abaixo, tentando
acertar um grande cupinzeiro no meio do pasto seco.
- Já faz trinta e cinco minutos. – afirmou
Carlos, impaciente, conferindo o relógio em seu pulso.
Àquela altura, Marco já havia se cansado de
andar para lá e para cá, procurando algo que o distraísse. Sentou-se ao lado do
Rafael, apanhou alguns seixos do chão, levantou-se novamente e quando iria
começar a atirá-las nele, viu que o irmão acabara de aparecer na curva da
estrada.
- Finalmente! – bradou, atirando o punhado de
pedrinhas sobre o garoto, fazendo-o soltar um palavrão.
Resolvido o problema, retomaram a subida. Estavam
em pleno inverno, porém, o dia estava quente. E com o Sol alto no céu, quase
não havia nenhuma sombra. A estrada, poeirenta, cheia de buracos e com muitas
pedras, tornava a caminhada ainda mais lenta. Havia se passado quase três horas
desde que recomeçaram a subir.
- Pessoal, vamos parar um pouco e fazer um
lanche. – disse Carlos.
Ele sentou-se em uma grande pedra escura, ao
lado da estrada. Havia várias por ali e cada um foi sentar-se sobre uma delas.
Bia ficou perto do namorado.
Enquanto comiam e descansavam, os jovens
admiravam a natureza ao redor. De ambos os lados, a estrada era quase
totalmente cercada por árvores altas e o céu, muito limpo e azul, só podia ser
visto através da faixa que o caminho formava.
- Já estamos bem no alto. Acho que devemos
estar perto. – disse Carlos. - Bora, gente! Acabou o descanso.
Andaram durante pouco mais de uma hora e
chegaram a uma bifurcação.
- Acho que é aqui o lugar que meu pai falou.
É até onde ele nos traria. -Ele olhou o relógio. – Falta pouco agora.
- Mas para que lado? – Marcos perguntou,
afoito.
Carlos ficou em dúvida. Ele não se lembrava
bem qual direção deveria tomar. Olhou para um lado, depois para o outro. À
direita, o caminho parecia descer e à esquerda, um pouco mais à frente, a
estrada fazia uma pequena curva que seguia para cima. A partir dali, a estrada
ficava mais estreita e mais íngreme.
- É para a esquerda. É isso.
Subiram com dificuldade um trecho e o caminho
se tornou mais plano. Logo eles puderam ver a cabana de madeira. Atrás dela, um
rochedo se erguia, fechando o caminho.
- Lá está. À esquerda da casa tem uma trilha,
subindo o rochedo, que leva para o local onde vamos acampar. – disse Carlos.
Eles se aproximaram mais. Rafael abriu a
cerca de arame farpado, já bastante enferrujado. Eles entraram no terreno. A
grama estava na altura dos joelhos e, à direita da cabana, um barranco parecia
descer indefinidamente. Os gêmeos entraram correndo pelo gramado descuidado,
fazendo a maior algazarra. O céu começava a mudar de cor, anunciando a chegada
do crepúsculo.
- Acho melhor ficarmos por aqui hoje. Não
conseguiremos chegar antes de anoitecer. – disse Carlos.
Rafael e Cal observavam a rústica construção.
Estava em bom estado. Construída sobre uma base de pedras, as paredes de
madeira pareciam bem sólidas e o telhado, feito de telhas antigas em forma de calha,
também aparentava confiança. Carlos subiu os três degraus de cimento que
levavam à porta, empurrando-a. Esta se abriu para um único cômodo quadrado, com
uma janela voltada para oeste. À direita da porta, junto da parede, havia um
velho fogão a lenha, feito de pedras e barro.
- Bia, vem me ajudar. – chamou Cal.
Os gêmeos vieram com ela. O chão de
concreto estava cheio de folhas secas e poeira. Pedro improvisou uma vassoura
de mato e Bia varreu as folhas. Rafael e Marco trouxeram galhos secos para
acender o fogão. Ainda não eram seis da tarde, mas a escuridão da noite já
dominara tudo. Não havia luar, apenas um mar de estrelas brilhantes sobre suas
cabeças. Era uma visão deslumbrante.
Depois de se acomodarem, cada um
preparou seu macarrão instantâneo no velho fogão. O crepitar do fogo, o barulho
do vento e o som dos insetos criavam um clima tranquilo e aconchegante.
Refeitos pelo jantar rápido, já um
pouco descansados, os meninos logo começaram a bagunçar. Bia e o namorado
sentaram-se sobre seus sacos de dormir, próximos ao fogão, conversando. O sono,
aos poucos, foi acalmando os ânimos de todos. As conversas foram ficando escassas.
O vento lá fora soprava com força e, de repente, eles ouvem uma batida muito
forte na porta. Bia, repentinamente arrancada de seu cochilo, gritou como se
tivesse visto um monstro. Rafael, que àquela altura já estava dormindo, também
berrou de susto. Mais pelo grito desesperado da menina que pelo barulho na
porta.
- O que foi isso? – Bia perguntou.
Agarrada ao namorado, ela tremia sem parar.
Todos se levantaram. Cal e os gêmeos
pegaram as lanternas e apontavam os feixes de luz para a porta e depois para
todos os cantos.
Bum! Outra batida violenta. Mais gritos
desesperados de terror. Desta vez a batida fora tão forte, que fizera uma fina
nuvem de poeira cair lentamente do telhado. As luzes da lanterna tremeluziam.
- Cal... Cal, o que é isso? – Bia
soluçava e chorava compulsivamente.
Carlos pegou um galho grosso de
árvore que eles tinham trazido como lenha, intentando usá-lo como arma. Pedro
empunhava na mão direita o facão que trouxera para abrir caminho na trilha,
enquanto tentava manter o foco da lanterna, na outra mão, fixo na porta. Rafael
e Marco, estáticos como estátuas de pedra, atrás de Pedro, sem saber o que
fazer.
- Parece que alguém está tentando
arrombar a porta. – presumiu Carlos. Seus sentidos estavam em alerta. A
adrenalina fazia seu corpo inteiro tremer.
- Se alguém ou alguma coisa conseguir entrar,
vamos atacá-lo de uma só vez. Ok? – falou Cal.
Todos concordaram imediatamente. Eram
bastante jovens, tinham força para lutar e sabiam que a única defesa teria de
ser o ataque.
-
Marco. Rafa. Peguem alguma coisa que possam usar para atacar. Bia, você fica
atrás de nós. – instruiu ele.
Outra vez, o que quer que fosse que estivesse
lá fora, investiu ferozmente contra a grossa madeira.
- Meu Deus! Meu Deus! O que é isso? –
choramingou Rafael.
Por alguns instantes, o silêncio tomara conta
do lugar. Não se ouvia absolutamente nada lá fora. Até o vento parecia ter
cessado.
- Deve ter ido embora. – sussurrou Pedro.
A quietude se mantivera por mais alguns
segundos.
- Não. Escute. Parece que está rondando a
cabana. – falou Cal, quase inaudivelmente.
- A janela! – exclamou Marco. – Ele pode
tentar entrar pela janela.
- Silêncio! – pediu Cal.
A coisa parecia caminhar pé ante pé, como um
homem. Perto da janela, ela pareceu escorregar, fazendo um baque surdo ao bater
contra o chão. Parecia ser algo grande e pesado. O barulho os fizera
estremecer.
- Parece que está voltando. – falou Bia,
chorosa, achegando-se ainda mais do namorado.
A criatura silenciara por algum tempo, antes
deles ouvirem passos rápidos e ela se chocar violentamente contra a parede
frontal. Agarrada à ela, suas patas tentavam se fixar, as garras arranhando a
madeira.
- Está tentando subir para o telhado! –
gritou Rafa, desesperado.
Todos correram para o fundo da cabana,
colados uns aos outros como um único ser, os olhos arregalados de pavor, a
respiração ofegante, os corações como metralhadoras.
O monstro falha na sua escalada e cai. Um som
como o do vento a sacudir as folhas das árvores se faz ouvir e cessa tão
abruptamente como surgira.
Os jovens não ousaram fazer nenhum barulho.
Mudos, receosos de que aquilo voltasse, eles permaneceram em posição de guarda,
até que a manhã chegasse.
Quando os primeiros sinais de luz começaram a
entrar na casa, Cal ordenou que eles recolhessem todas as suas coisas e se
preparassem para sair. O rapaz se aproximou da porta, tirou cuidadosamente a
forte trava de madeira que a trancava e a abriu bem devagar.
- Agora! – disse ele, sua voz alta o
suficiente para que todos ouvissem.
Eles atravessaram correndo o gramado alto e
chegaram à estrada, sem sequer perceber que a porteira de arame estava aberta,
caída no chão. Carlos pegou o celular via satélite que o pai deixara com ele e
discou o número de casa. Sua mãe atendeu e ele pediu que o pai viesse buscá-los
o quanto antes. Disse que estava tudo bem, para tranquilizar sua mãe, mas
insistiu para que ele viesse o mais depressa possível.
- O que há com vocês? – perguntou o pai, logo
que eles começaram a volta para casa.
- Nada! O acampamento não foi legal. –
respondeu o garoto, um pouco frustrado.
- Eu esqueci de contar para você, filho! –
disse o senhor Paulo, cheio de animação. - Tem uma lenda que diz que dois
montanhistas erraram o caminho e acabaram seguindo para a esquerda, na
bifurcação. Pois eles acharam que o outro caminho descia apenas. Faz muito
tempo isso.
Ele fez uma pequena pausa, procurando na
memória as lembranças da antiga estória.
– O
que se contava, era que eles resolveram passar a noite numa cabana de madeira
que havia no fim da estrada, por já ser noite. Então, de madrugada, eles foram
acordados por pancadas muito fortes na porta. O susto foi enorme, eles disseram.
Como se alguém estivesse tentando arrombar a porta. Eles ficaram apavorados. Mas
quando eles contaram isso, no hotel em que estavam hospedados, as pessoas
disseram que aquela cabana já não existia havia muito tempo.
Cal olhou para o pai e depois para os amigos
no banco traseiro da caminhonete, como quem perguntava se deveria ou não
contar. Ninguém disse uma só palavra.

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