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Suspeita Improvável

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Logo que o despertador tocou, eu levantei–me sem fazer rodeios. Olhei meu reflexo no espelho do banheiro e gostei do que vi. Ter cortado os cabelos realmente foi uma ótima ideia. Fez-me parecer mais jovem. Conferi a barba, coloquei o pente sobre o balcão da pia e desci para a cozinha. Ouvi Ana descendo as escadas. Ela se aproximou e me beijou na boca. – Feliz aniversário! – Obrigado! Quarenta anos. Retribui-lhe o beijo e observei-a por um instante. – Nem parece. – ela disse, sorrindo. – Sempre me dizem isso. Só não sei se é verdade. Ela abraçou-me. – É verdade, bobo! Pode acreditar. Quando peguei as chaves para sair, ela me perguntou se eu chegaria mais cedo.             – Esse é meu plano. – respondi, dando-lhe um beijo de despedida.             Depois de uma proveitosa noite de sono, meu corpo estava descansado e eu sentia-me cheio de disposição. E...

A Cabana de Madeira

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As férias de julho finalmente tinham chegado. Cal e sua turma passaram o último mês planejando a subida da montanha e a ansiedade que sentiam logo deu lugar a uma animação quase infantil. Nem mesmo o imprevisto, que impedira que seu pai os levasse em sua velha caminhonete até a metade do caminho, pôde enfraquecer-lhes o entusiasmo. Estava tudo pronto e nada os impediria. Haviam combinado como ponto de encontro o pátio da antiga estação ferroviária, bem no centro da cidade. Ficava a pouco mais de quinhentos metros do início da estradinha de terra que os conduziria para a montanha e, como a cidade era pequena, embora morassem em bairros diferentes, não demorariam mais que dez minutos para chegar até lá. Uma curta caminhada. Cal e Bia foram os primeiros a chegar. O jovem casal estava namorando há dois anos e ele dormira na casa dela, para que sua mãe os ajudasse com as mochilas e os deixasse na estação às onze da manhã. Marco e Pedro, os gêmeos, chegaram em seguida. - E aí, c...

Alienígenas

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O operador do sistema de rastreamento espacial observou o monitor à sua frente. O objeto prosseguia seu rumo pré-programado em direção ao nosso planeta. Como a nave já se encontrava relativamente perto, era possível ver o pontinho brilhante se mover tranquilamente na tela, prestes a alcançar uma órbita específica chamada Hohnm, o que daria início ao seu processo de pouso. Distraído, o oficial não viu um de seus superiores se aproximar. - Boa noite, oficial! – cumprimentou. - Boa noite, senhor! – ele ergueu-se da cadeira e prestou continência. - E os nossos visitantes? – quis saber o superior. - O pessoal do alto escalão quer um relatório. - Continuam a caminho. Como previsto, senhor. Fazia quase sete meses que a AME, a Agência de Monitoramento Espacial, acompanhava a viagem dos corajosos cosmonautas. - Vou enviar os relatórios, senhor! O superior fitou o pequeno ponto luminoso se movendo discretamente na tela. Por alguns instantes, pareceu ao oficial de segurança que s...

Pós-humano

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             Eu o ficava observando quando o encontrava ocasionalmente pelas ruas da cidade. Ele parecia nunca perceber. Nunca olhava para trás. Nem para os lados. Até mesmo quando atravessava uma rua qualquer. Se por ventura algum carro cruzasse seu caminho, ele parava o tempo necessário para poder seguir adiante e somente isso. Mas os caminhos estavam sempre livres para ele. Ele seguia sempre em frente, olhando apenas o que atravessava sua rota. Nada parecia poder detê-lo.             A primeira vez que o avistei, ele vinha caminhando tranquilamente por uma trilha que margeava a estrada de ferro que corta a cidade. Era noite e eu vinha da igreja que eu frequentava aos domingos. Elegantemente vestido de preto e com seu sobretudo de corte impecável, suas roupas caíam com perfeição sobre seu corpo esguio. Alto e magro, sua imagem por si mesma já era algo que chamava a atenção de qualquer pessoa...